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Fev
18
2025

Três motivos pelos quais os recordes do varejo em 2024 não devem se repetir
Após oito anos seguidos de alta, o setor deve enfrentar desafios como juros, inflação e mercado de trabalho O varejo brasileiro teve um desempenho impressionante em 2024, com um crescimento de 4,7%, o maior registrado desde 2012.
O resultado superou levemente a previsão da Associação Comercial de São Paulo (ACSP), que estimava uma alta de 4,5%. "Esse crescimento foi impulsionado pelo aumento da renda e da oferta de crédito", explicou Ulisses Ruiz de Gamboa, economista do Instituto de Economia Gastão Vidigal (IEGV), da ACSP.
Apesar do cenário positivo do último ano, o setor já se prepara para um 2025 mais desafiador. Os números do final de 2024 indicam uma desaceleração, como mostra o dado de dezembro (-0,1%) e a média trimestral estável (0%).
De acordo com Cristiano Santos, gerente da Pesquisa Mensal do Comércio (PMC, do IBGE), a recente estabilidade no varejo se dá após atingir um patamar recorde em outubro de 2024. Ou seja, o mercado ainda opera em um nível elevado, mas sem novas acelerações significativas.
Entre os segmentos que mais cresceram no último ano, o setor de artigos farmacêuticos e perfumaria teve um aumento de 14,2%, o maior da série histórica. Supermercados e alimentos subiram 4,6%, enquanto móveis e eletrodomésticos registraram 4,2% de alta. Já combustíveis e lubrificantes tiveram queda de 1,5%.
No varejo ampliado, que inclui veículos e material de construção, o crescimento foi de 4,1%, o maior desde 2021, puxado pelas altas de 11,7% no setor automotivo e 4,7% no segmento de construção.
O que esperar para 2025?
Embora 2024 tenha sido um ano forte para o comércio, especialistas apontam que três fatores principais devem reduzir o ritmo do crescimento:
1. Juros em alta A taxa básica de juros (Selic) passou de 10,50% para 13,25% ao ano e pode subir ainda mais. Isso encarece o crédito, reduzindo o consumo de bens duráveis que dependem de financiamento. Além disso, varejistas endividadas podem sentir o impacto no lucro.
2. Mercado de trabalho menos aquecido A geração de empregos foi um dos pilares do crescimento do varejo em 2024. No entanto, com a economia desacelerando, a tendência é que o nível de emprego se estabilize ou até recue, afetando diretamente o poder de compra das famílias.
3. Inflação e endividamento das famílias O impacto da inflação nos últimos meses de 2024 já sinaliza um cenário mais desafiador. Com a renda mais pressionada, o consumo pode perder força, especialmente em setores que dependem de crédito.
Segundo Ricardo Meirelles de Faria, professor da FGV, o varejo pode crescer apenas um terço do registrado em 2024, ficando próximo de 1,3%. A estimativa ainda será ajustada na próxima edição do relatório Tendências do Varejo, prevista para março. “O grande desafio do Banco Central é equilibrar o controle da inflação sem prejudicar o consumo e os investimentos na economia”, destaca Volnei Eyng, CEO da gestora Multiplike.
Para Roberto Jalonetsky, CEO da Speedo Multisport, o cenário exigirá ainda mais planejamento e gestão. “O empreendedor brasileiro precisa ser criativo para enfrentar essa montanha-russa da economia. Com uma Selic se aproximando de 15%, o varejo certamente sentirá os impactos.”
Já Felipe Vasconcellos, sócio da Equus Capital, alerta que as varejistas já sentem os primeiros sinais dessa nova fase. No setor de moda e vestuário, por exemplo, alguns fabricantes estão oferecendo descontos aos lojistas, sinalizando uma queda na demanda.
Apesar disso, alguns especialistas acreditam que fatores como o aumento real do salário mínimo e a estabilidade do câmbio podem ajudar a manter um nível saudável de consumo em determinados segmentos. “O comportamento do consumidor pode estar apenas passando por uma fase de ajuste”, pondera Matheus Pizzani, economista da CM Markets.
Segundo ele, setores ligados a bens essenciais, como supermercados e farmácias, podem continuar com resultados positivos, mesmo diante do aperto monetário.
Conclusão
O varejo brasileiro chega a 2025 com desafios importantes, mas também com oportunidades. O cenário exige estratégias mais eficientes, adaptação às novas condições do mercado e um olhar atento para os setores que devem continuar crescendo. Afinal, como sempre, quem se adapta melhor sai na frente!
Fonte: https://dcomercio.com.br/